A Revolução do Chat na América Latina: De Ferramenta de Transmissão a Hub Bancário
A digitalização na América Latina não seguiu o roteiro linear previsto pelo Vale do Silício, onde usuários migravam gradualmente de planilhas para softwares complexos em computadores de mesa. Na região, o processo ocorreu através de um salto tecnológico direto para os dispositivos móveis, transformando aplicativos de mensagens na principal infraestrutura comercial e financeira. Com mais de 70% das compras digitais sendo realizadas via smartphones, o WhatsApp deixou de ser apenas um aplicativo de conversas para se tornar o centro operacional da economia latino-americana, abrigando desde ferramentas de transmissão em massa até operações bancárias complexas.
O Papel dos Canais e a Gestão de Conteúdo
Parte dessa evolução inclui a funcionalidade dos Canais, uma ferramenta desenhada para comunicações unidirecionais em larga escala. Diferente dos grupos tradicionais, os canais ficam em uma aba separada denominada “Atualizações”, onde apenas administradores podem enviar textos, vídeos e enquetes, enquanto seguidores apenas reagem. O objetivo é criar um diretório pesquisável e organizado, permitindo que marcas e influenciadores alcancem seu público sem misturar o conteúdo com as conversas pessoais.
No entanto, a gestão dessa presença digital exige saber o momento de encerrar ciclos. O processo de exclusão de um canal é definitivo e requer atenção. Para desativá-lo, o administrador deve acessar a aba “Atualizações”, selecionar o canal e tocar no nome dele no topo da tela para abrir as informações. Ao selecionar a opção “Apagar canal”, identificada por um ícone de lixeira, o sistema solicita uma confirmação inicial e, por segurança, exige a validação do código do país e do número de telefone do proprietário.
Uma vez concluída a operação, a ação é irreversível. O canal desaparece dos resultados de pesquisa e novos usuários não conseguem mais acessá-lo via links de convite. Contudo, o histórico de conteúdo permanece visível nos dispositivos de quem já seguia a página, acompanhado de uma notificação informando o encerramento das atividades. Essa mecânica reflete a tentativa do WhatsApp de organizar o fluxo de informação, mas a verdadeira transformação econômica ocorre quando a conversa se converte em transação.
O Salto para a Infraestrutura Financeira via Chat
Enquanto os canais focam na distribuição de conteúdo, startups estão reescrevendo a infraestrutura financeira da região ao integrar serviços bancários diretamente na janela de bate-papo. A premissa é simples: para muitos latino-americanos, o chat é a própria internet. Mais de 90% dos consumidores utilizam o WhatsApp para falar com empresas, mas historicamente a conversa era interrompida quando chegava a hora de pagar, forçando o usuário a migrar para portais externos ou aplicativos bancários lentos, o que gerava atrito e desistência.
A startup Jelou, fundada no Equador, ilustra essa mudança de paradigma. A empresa levantou recentemente 10 milhões de dólares em uma rodada liderada pela Wellington Access Ventures, com participação da Krealo e da Collide Capital, apostando que o futuro das transações não está em softwares sofisticados, mas em fluxos de conversação alimentados por inteligência artificial. Através de sua plataforma “Brain”, a Jelou permite que bancos e varejistas realizem pagamentos, abram contas e analisem crédito sem que o cliente saia do WhatsApp.
A empresa já processou mais de 100 milhões de dólares em operações financeiras para mais de 500 clientes em 13 países. Deste montante, cerca de 80 milhões de dólares correspondem a concessão de crédito ao consumidor diretamente no chat. Essa abordagem, que prioriza a execução em vez da simples comunicação, foi moldada pelas exigências regulatórias locais, integrando verificação de identidade e trilhas de pagamento específicas de cada país.
Soberania de Dados e Inclusão Econômica
Essa nova infraestrutura vai além da conveniência; ela toca em questões estruturais de inclusão econômica e propriedade de dados. Alvaro Ramirez, da NAJU Latam, plataforma voltada para pequenos agricultores e empresas sub-bancarizadas, aponta que o foco está mudando do simples acesso para a soberania dos dados. Durante décadas, pequenas e médias empresas (PMEs) foram consideradas “inviáveis” para o sistema bancário tradicional não por falta de atividade econômica, mas porque seus dados eram invisíveis ou capturados por intermediários.
Ao trazer o histórico de transações, produção e demanda para dentro de conversas estruturadas e auditáveis, essas novas plataformas permitem que o empreendedor detenha a posse de suas informações. Isso facilita o acesso a capital de giro, seguros e melhores condições de crédito, democratizando a participação na economia formal de uma maneira que o modelo bancário tradicional não conseguiu entregar. A América Latina, portanto, não está apenas digitalizando seus processos; está criando um modelo próprio onde a complexidade tecnológica é absorvida por uma interface simples e familiar.